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CAET - DARJCentro Anglicano de Educação Teológica da Diocese Anglicana do Rio de Janeiro May 18 Algumas mudanças neste BlogHá alguns meses atrás, abrimos este blog para promover os estudos bíblicos baseados na estrutura dos Círculos Bíblicos do CEBI (Centro de Estudos Bíblicos) em nossa Diocese. Nossa intenção era promover essa forma de estudar a Bíblia. Atualmente, já contamos com várias Paróquias realizando estes estudos, a saber: Bom Jesus, Catedral de São Paulo Apóstolo e São Lucas. Esperamos que mais Paróquias e congregações venham a implantar esse sistema em suas atividades. Desta forma, partimos então para a segunda etapa do nosso trabalho, que é a divulgação destes Círculos Bíblicos e do Curso de Bíblia do CEBI. Este curso é feito por correspondência e tem como finalidade o aprofundamento no estudo da Bíblia. O preço é bem acessível e a forma de estudo idem. Para se inscrever basta acessar o site do CEBI: www.cebi.org.br - Importante avisar que o CEBI é um órgão ecumênico. Agora este espaço se destinará não apenas a promover o CEBI, mas também divulgar as atividades do CENTRO ANGLICANO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA, o CAET. O CAET está sendo reestruturado e em breve teremos algumas novidades. Aguardem. Também estamos apoiando a Comissão de Evangelismo e MIssão e a União da Juventude Anglicana do Brasil - Rio. Há trabalhos de divulgação e marketing sendo planejados para que a Igreja Anglicana, que tem quase 2 mil anos, torne-se mais conhecida no Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo (nossa área de abrangência diocesana). Como parte dessas novidades, postamos aqui um artigo bem oportuno de um irmão nosso da ICAR (Igreja Católica e Apostólica Romana), o bastante conhecido Frei Beto. Está logo abaixo. Agradecemos por visitarem nosso espaço e aguardamos contato! Coordenação do CAET. Que diabo de fé é a nossa? - *Frei Betto*Em tempos de visita papal, convém fugir um pouco do shownalismo (como é chamado o jornalismo que faz da notícia espetáculo) e falar do essencial: a fé. Às vezes me pergunto se a humanidade tem mesmo avançado. Nos tempos primevos, ensina Fustel de Coulanges, cada família cultuava seus deuses domésticos. Ninguém invejava o deus do vizinho, nem tinha a pretensão de impor a ele o deus de suas crenças. A menos que a filha fosse se unir em casamento ao filho do vizinho. Nesse caso, ela se via obrigada a renegar seus deuses familiares e aderir de corpo e alma aos deuses cultuados – o qual exercia também a função de sacerdote. Como disse seu Apolônio, meu mecânico, com quem converso essas coisas enquanto o vejo limpar o carburador, "o povo antigo não tinha fé, tinha fezes". Minha avó era mais contundente ao ver minha preguiça de levantar cedo no domingo para ir à missa: "Que diabo de fé é sua?" A coisa começou a complicar quando o politeísmo se viu ameaçado pela contra-reforma monoteísta ocorrida no Egito a partir de 1.400 anos antes da era cristã, graças ao faraó Akhenaton e ao rebelde hebreu Moisés. A antiga e tradicional democracia divina, com cada deus satisfeito com a sua respectiva cota de poder, acabou desbancada pelo monopólio da fé. Nasceu, então, uma divisão que jamais a humanidade conhecera antes: de um lado, os fiéis; de outro, os idólatras – que, segundo os primeiros, acreditavam em falsos deuses. A humanidade ainda não tinha conhecido o fenômeno do ateísmo. Essa foi a primeira reação fundamentalista registrada pela história: o deus de uma nação, além de ser o principal, é promovido também a ser o único. Portanto, a crença em um decreta a descrença e o descrédito de todos os demais deuses. Só a única e verdadeira fé permite o acesso ao único e verdadeiro Deus. Daí nasceu a distinção entre o verdadeiro e o falso. E, em nome do verdadeiro, a religião passou a recorrer à violência, que parece uma antinomia. Mas quem pensa nisso quando se encontra imbuído de que deve impor aos demais a verdade, ainda que a ferro e fogo? Sobretudo quando se está convencido de que autoridade e verdade é mais do que uma rima. (De fato, é uma tragédia.) A modernidade veio salvar a religião de sua presunção de ser a única depositária da verdade. Hoje, cremos muito mais na verdade científica, empírica e matematicamente comprovada, que nas verdades religiosas. Quem duvida da existência de um trio de quarks na intimidade do átomo, embora não haja telescópio que nos permita vê-lo? No entanto, nossos aparelhos eletrônicos funcionam. Para muitos, funcionam miraculosamente, como o fax, o tempo real da @ e o celular. Mas quem tem absoluta certeza de que há vida depois da morte? Ninguém. No máximo, temos fé. Ora, direis espantado, estaria este heterodoxo frade da Teologia da Libertação reivindicando a volta do politeísmo? Nada disso. Desejo apenas a tolerância, como a praticada por Jesus, que jamais criticou a fé da mulher fenícia ou a do centurião, nem impôs como condição a suas curas a prévia adesão à sua crença. A mim, o que espanta é constatar a nova modalidade de Politeísmo: lá em cima, num céu abstrato, o deus no qual cremos; aqui embaixo, os deuses aos quais de fato prestamos devoção: o dinheiro, o poder, o consumismo, que nos consome e consuma. E essa crença rigorosa de que fora do capitalismo não há salvação, embora dois terços da humanidade não tenham acesso aos bens que ele oferece. O cerne da questão é bem mais embaixo: cremos em Deus e nos bens finitos que nos etiquetam socialmente, mas não no próximo. Religião, sim; amor, não, exceto o que aumenta a nossa cota de satisfação e prazer. Toda a nossa lógica sistêmica cultua o mercado, a propriedade privada, o dinheiro aplicado, o crescimento do PIB, o aumento das exportações, o rigor fiscal, sem a menor preocupação para com os sem-terra, sem-teto, sem-escola, sem-saúde e sem-identidade. Em nome de Deus, passamos indiferentes por aqueles que têm fome, têm sede e são imagens vivas de Cristo, conforme o evangelho de Mateus (25, 31-44). Ora, quem dispõe de tempo para prestar atenção naquele que se encontra dependurado numa cruz, atrapalhando o nosso programa de domingo? Alguma ele andou aprontando.. *_______________* Frei Betto é escritor, autor do romance sobre Jesus *Entre todos os homens *(Ática), entre outros livros. (reprodução do Estado de Minas, 10/05) September 26 O VÉU VAI CAINDO E A FACE DE DEUS REAPARECEPara quem não foi ou quem ficou sem cópia, eis aqui um resumo do que estudamos no dia 23/09: O outro instrumento usado pelo
Apocalipse para tirar o véu dos acontecimentos é o seu costume de dividir a
história em etapas e apresentar como futuro o que já pertence ao passado. In C. Mesters, Esperança
de um povo que luta - O Apocalipse de São João, uma chave de leitura; September 01 Firmes em Deus“Uns confiam nos carros, outros nos cavalos, mas nossa força está no nome do SENHOR nosso Deus. Eles vão tropeçar e cair, mas nós ficaremos firmes e em pé”. (Salmo 20,8-9, Bíblia Sagrada tradução da CNBB)
A sociedade pós-moderna em que vivemos nos trouxe profunda diversidade e até mesmo fragmentação dos estilos de vida, incluindo aí as nossas crenças religiosas que se encontram “desnorteadas” diante do pluralismo, do instrumentalismo e do questionamento radical do Outro. Nós cristãos vivemos mergulhados na cultura de nosso tempo e, quando somos maduros, com ela dialogamos, aceitando com alegria os elementos progressistas e libertários dessa cultura pós-moderna (valorização da diversidade, pluralismo, flexibilização da rigidez normativa moral, quebra dos monopólios de verdade, etc.), mas também com criticidade diante de elementos que, pela nossa fé, contrariam a plenitude do homem e da mulher, imagens de Deus. Esses elementos negativos da pós-modernidade incluem insegurança social, perda de identidade (nacional e pessoal), fragmentação, diluição das estruturas morais basais, violência crescente, fundamentalismo, angústia, epidemia depressiva, etc. Diante desses elementos negativos da cultura pós-moderna os cristãos não podem esquecer dos seus princípios éticos e perenes, assentados nas Sagradas Escrituras, a segurança de nossa identidade pessoal-religiosa (sem a rigidez medrosa e fanática dos fundamentalismos!), num Deus de Amor que governa os acontecimentos últimos e que nos convida a com Ele nos mantermos em relação constante. Esse Deus pessoal-comunitário que se relaciona conosco através da nossa fé é fonte de energias para vivermos em meio aos “lobos” desse mundo, reconhecendo também seus aspectos positivos-libertários que, mesmo germinalmente, estão sempre presentes, evitando assim o vazio pessimista do “tudo está perdido”. Essa relação humano-divina se alimenta de fé, amor-caridade e esperança, as três grandes virtudes teologais. Nesse momento de violência, desemprego, insegurança social e identitária, é importante destacarmos que é na fonte relacional divino-humana – que se dá nas Igrejas, em oração ou no interior do cotidiano nosso - que poderemos extrair energias vitais para nós e para compartilharmos essa Presença d’Ele com os nossos semelhantes, no sentido de que temos um Deus de Esperança que caminha conosco e que jamais nos abandona, nem no “deserto” em que por vezes estamos vivendo. É por isso que na oração da manhã dos franciscanos pedimos que Deus nos revista de sua beleza para que “no decurso deste dia eu te revele a todos”, i.e., nos colocarmos a partir do influxo d’Ele como “reveladores” da Sua presença para todos os outros. É nesse sentido que nós cristãos - quando temos condições financeiras para isso! - poderemos sim gozar das coisas boas que o desenvolvimento material das sociedades, especialmente as do capitalismo, produziram: carro, telefone, computador, plano particular de saúde, etc. O que jamais podemos esquecer é que nossa segurança não poderá se assentar em tais coisas, pois cremos firmemente numa realidade última, transcendente e imanente, que é Deus, nosso Senhor, o Criador. O povo brasileiro dá exemplos vivos disso, pois mesmo vivendo em um ambiente socioeconômico de incerteza, desempregos e subempregos, fome, miséria em alguns setores, etc. ele não perde a alegria e amor, sinais de Deus na vida. O povo reconhece seus problemas, não vive absolutamente imerso na “alienação”, mas consegue, a despeito dos seus [nossos] problemas encontrar a Presença d’Ele, i.e., mesmo sem ser cristão, viver da Graça do amor, da alegria, da paz possível. Olhem a energia que circula em nossas cidades ao cair da tarde, na sexta-feira, entre pobres e ricos. Percebam quanta busca, quanto querer vida, encontrar com amigos, sorrir, beber alguma coisa, divertir-se, sair com a família, etc. É na sexta-feira que, de forma sutil, muitos cristãos e não-cristãos estão afirmando que, apesar dos carros ou do desemprego, apesar do ouro ou da ausência dele, confiamos no “nome do Senhor nosso Deus” que se revela como alegria, comunhão, amor e vida. No fim do dia, são esses os elementos mais importantes que dão sustentação psíquica sadia ao nosso viver “em Cristo”. Como nos ensina São Paulo, “é pela vossa perseverança que conseguireis salvar a vossa vida”. Perseveremos nas sextas-feiras, nos sábados e em todos os nossos dias, aguardando a plenitude de todas as coisas (redenção escatológica, como gostam os teólogos), mas vivendo no agora a alegria e o amor de cada momento. Marcio Sales Saraiva Igreja Episcopal Anglicana do Brasil/IEAB 04-12-2004 POR QUE NÃO UM CRUCIFIXO?MARCIO SALES SARAIVA Sociólogo (UERJ), graduando em Psicologia (UNESA) e estudante de Teologia básica (PUC-Rio)
É interessante notar que mesmo entre católicos existem aqueles que se incomodam com a imagem de um crucifixo ou mesmo em usar um pendurado em seu peito. A imagem de um Deus que se fez homem, pobre, pequenino e morreu como bandido de forma cruel é capaz de causar incômodos e espanto. Como disse Santa Teresinha do Menino Jesus, “o próprio do amor é rebaixar-se. Descendo assim, Deus mostra sua infinita grandeza”[1]. A cruz é um doloroso e poético sinal de um Deus que se rebaixa por amor aos seus filhos e filhas. Muitos protestantes – popularmente chamados de evangélicos, mas evangélicos são todos aqueles que seguem o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo e não somente os protestantes – tem verdadeiro horror à cruz, especialmente os crucifixos. Ateus então nem se fala, com exceção dos que são absolutamente indiferentes aos símbolos do cristianismo. Muitos acusam o crucifixo de ser este um símbolo de suplício, de dor, de sofrimento e que os católicos – ou aqueles que usam - seriam “cultuadores do sofrimento, da dor e da morte” ao exporem seus crucifixos no peito, nas paredes das casas, ambientes de trabalho, carros e igrejas. Implicitamente, acusam os católicos de sofrerem de um distúrbio psiquiátrico de tipo sadomasoquista. Há um grave problema na sociedade ocidental atual que é a tentativa de banir toda e qualquer dor ou sofrimento. As crianças são proibidas de entrarem nos cemitérios, evita-se comentar sobre doenças, não se fazem mais velórios dentro de casa, muitos se esquivam de visitar pessoas hospitalizadas (“detesto ver gente sofrendo”, dizem) e trocam de canal de televisão quando o assunto é doloroso. A indústria farmacêutica cresce inventando drogas para banir todas as dores, especialmente as dores da alma – o uso de antidepressivos é espetacular! - e as cirurgias plásticas avançam na promessa de deter o envelhecimento e “enganar” a morte que inevitavelmente se aproxima[2]. Pensa-se, de forma equivocada, que evitando o contato com a dor, o sofrimento, o envelhecimento e a morte, as crianças e os adultos se tornarão seres mais saudáveis emocionalmente, posto que seriam “poupados” de possíveis “traumas psicológicos”. O resultado que estamos assistindo no mundo parece não confirmar essa tese. Assim como eu, alguns psicanalistas e psicólogos[3] discordam dessa visão ingênua e escapista que cria uma redoma de vidro no entorno do sujeito. Nada mais positivo e amadurecedor do que a verdade da vida, o que inclui alegria, sucesso, amor, amizade, juventude, espiritualidade e também a dor, o sofrimento, a velhice e a morte, aspectos sempre presentes em nossa peregrinação na Terra. Penso eu que é aqui que se inclui as tentativas de se banir o crucifixo, como se fosse possível uma cirurgia plástica na cultura ocidental. É possível entendermos alguns constrangimentos pessoais diante de um crucifixo usado por um católico ou até mesmo o receio de alguns fazerem uso do mesmo. Como um caso a parte, há os que têm vergonha de assumir-se como cristão na frente de outras pessoas, o medo de serem “cobrados” pela ostentação pública de sua fé. A estes, Jesus falou diretamente: “Aquele, porém que me renegar diante dos homens, também o renegarei diante de meu Pai que está nos Céus” (Mt 10,33) ou então “quem se envergonhar de mim e de minhas palavras, o Filho do Homem [Jesus] dele se envergonhará, quando vier em sua glória e na do Pai e dos santos anjos” (Lc 9,26)[4]. Cremos que todas as pessoas têm o direito de não gostarem do crucifixo, que os católicos tem o direito de fazer ou não uso do crucifixo e que isso não pode ser confundido com uma espécie de sinal obrigatório ou necessário de todos. Em outras as palavras, um cristão, e em particular o católico, não pode ser medido pelo uso de um símbolo. Há homens e mulheres santas que não fazem uso destes. Então, o que é um símbolo? “Tudo o que, da parte do homem, comporta além de sua significação imediata um segundo sentido, que transfigura a realidade material e garante assim uma mediação entre o cotidiano do homem, de onde provém este sinal, e uma realidade que o ultrapassa, torna-se claro que aquilo que permite ao símbolo exprimir uma experiência religiosa é o fato de estabelecer uma relação entre os dois níveis diferentes de significação: o da natureza em que vive o homem e à qual pertence o sinal portador de um novo sentido e o da cultura religiosa da qual o homem participa”[5]. Assim sendo, percebemos que símbolos são mediadores entre o nosso cotidiano-concreto-material e aquilo que transcende tudo isso. O símbolo traz sempre um significado imediato, óbvio, superficial, senso comum e um conjunto de significantes de sentido mais profundo, menos visível. Historicamente, a primeira cruz datada apareceu em um monumento cristão no ano de 134. As mais antigas representações são três camafeus – peças de pedras finas talhada em relevo - dos séculos II/III trazendo ilustrações da crucifixão[6]. Assim, percebemos que as comunidades cristãs cedo usaram imagens da crucifixão de Jesus como arte e símbolo de fé. Banir essas imagens é negarmos todo o patrimônio histórico que herdamos da Tradição, belíssimos símbolos da fé dos nossos ancestrais. A negativa protestante – nem falo do horror ou do desprezo dos não-cristãos e ateus – poderia levar em consideração esses dados, compreendendo a historicidade do uso da cruz, seus significados profundos e sua imagem venerável - não a confundindo com um objeto de idolatria. A idolatria é algo demoníaco[7] porque quer “materializar-fixar” questões que estão para além do homem. “Devemos repetir com toda a clareza: não existem símbolos, mesmo religiosos, fora do homem, fora de um discurso especial que é o único a conferir significação e alguma coisa ou a alguém. (...) Revelando o inexprimível, exprimindo o indizível, o símbolo religioso facilitaria a passagem do imaginário à realidade ontológica”[8]. No campo protestante, há uma perspectiva teológica que pode nos ajudar a entender esse horror pelo crucifixo e até mesmo pela dimensão simbólica[9]. É a centralidade que há na teologia protestante - especialmente nas correntes “renovadas”, pentecostais e neopentecostais - no Cristo Ressurreto e vencedor da morte. É o Cristo vitorioso, glorioso, Rei dos reis, Senhor dos Exércitos, Leão de Judá, etc. Nenhum católico nega toda a alegria e festividade do Cristo pascal. Cremos n’Aquele que está vivo e ao lado de Deus-Pai Todo-Poderoso, cremos em Nosso Senhor como Juiz da história humana, presença viva no coração dos cristãos e na Igreja, seu corpo místico. Contudo, ao mostrarmos a imagem de Jesus na cruz nós afirmamos, em consonância com as Escrituras Sagradas, que o ressurreto/vitorioso foi antes um homem humilhado, morto e provisoriamente derrotado pelos poderes do mundo. Ele sofreu, sentiu-se angustiado no horto das Oliveiras, chegou a suar sangue. Foi traído, abandonado pelos seus amigos, torturado, furado, zombado e sangrou. Pediu para que Deus perdoasse os seus malfeitores porque eram ignorantes. Sofreu até entregar-se ao Pai e dizer “está tudo consumado”. Era verdadeiramente humano e verdadeiramente “o Verbo que se fez carne” (Jo 1,14). Ernst Käsemann, um importante teólogo protestante alemão, reconheceu a necessidade de um teologia da cruz: “A cruz de Cristo se volta constitucionalmente contra toda a ilusão religiosa e remete o homem a sua humanidade. (...) Para nós, a cruz de Jesus é o verdadeiro poder crítico da terra e de cada um, porque molda a existência toda, isto é, além de nossos pensamentos e palavras, também a nossa vontade”[10]. Ao olharmos para Jesus pendurado na cruz nós lembramos que nossa vida é também caminhada com o Crucificado. Ele nos chamou: “vá, pegue sua cruz e siga-me”, porque “quem não toma a sua cruz e não me segue, não é digno de mim” (Mt 10,38). Não há nisso nenhum “culto a dor”, nenhuma patologia psiquiátrica, mas uma fé convicta, profunda, um reconhecimento óbvio de que dor, sofrimento, velhice, oposição e morte são dimensões importantes da vida e, muito especialmente, da vida dos cristãos. Jesus disse mais: “Neste mundo vocês terão aflições, mas tenham coragem; eu venci o mundo” (Jo 16,33). Ele não prometeu moleza e bênçãos de prosperidade material! Ele mesmo dizia que “não tinha onde reclinar a cabeça”. Nasceu numa manjedoura onde há palha e esterco! Se existe alguma dúvida de que só encontramos facilidades nesse mundo, leiamos S. João 15,18-19: “Se o mundo odiar vocês, saibam que odiou primeiro a mim [porque foi esse mundo que me crucificou!]. Se vocês fossem do mundo, o mundo amaria o que é dele. Mas o mundo odiará vocês [os crucificará também!], porque vocês não são do mundo, porque eu escolhi vocês e os tirei do mundo”. Sabemos que viver nesse mundo como cristão é corrermos o risco de sofrer o ódio, a oposição visceral de todos aqueles que de maneira consciente ou inconsciente, direta ou indiretamente, rejeitam a presença amorosa de Deus. Em outras palavras, é viver crucificado por andar nos caminhos d’Ele. Jesus mesmo sabia disso quando dizia: “eis que eu envio vocês como ovelhas no meio de lobos” (Mt 10,16), mas “não tenham medo deles” (Mt 10,26), “daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma” (Mt 10,28). Ao olhar para o meu crucifixo no peito eu estou sempre me lembrando disso tudo que foi dito por Nosso Senhor. Converso mentalmente com Ele: “Tu estás aí pendurado, Tu bem sabes o que é a vida aqui, então, ajuda-me a vencer o mundo como Tu mesmo venceu a cruz, dá-me coragem Senhor Jesus!”. A mensagem evangélica nos diz que as coisas são apertadas: “entrem pela porta estreita porque a porta larga e o caminho fácil levam para o inferno, e há muitas pessoas que andam por este caminho. A porta estreita e o caminho difícil [cruz!] levam para a vida, e poucas pessoas encontram esse caminho” (Mt 7,13-14). O fato de estarmos aqui falando em cruz não nos torna pessimistas ou desolados diante da vida. Pelo contrário, é nas dificuldades que nos tornamos mais fortes ainda. O apóstolo dos não-judeus também nos confirma isso dizendo aos cristãos de Roma: “... nos alegremos nos sofrimentos [novamente o tema da cruz!], pois sabemos que os sofrimentos produzem a paciência, a paciência traz a aprovação de Deus, e essa aprovação cria esperança. Essa esperança não nos deixa decepcionados, pois Deus derramou o seu amor no nosso coração, por meio do Espírito Santo que ele nos deu” (Rm 5,3-5) Jesus na cruz nos faz lembrar o profundo amor de Deus-Pai por nós. Não foi Deus quem assassinou Jesus para satisfazer seu ódio pelos pecadores, mas Jesus mesmo é Deus quem se entrega por absoluto amor aos pecadores, gente como eu e você. Ele mesmo disse que “não existe amor maior do que dar a vida pelos amigos” (Jo 15,13). O crucifixo simboliza essa entrega amorosa de um Deus que “amou de tal forma o mundo que entregou seu filho único” (Jo 3,16) para morrer de forma vergonhosa na cruz e fez isso por nós. Percebam que Deus não odeia o mundo, ele ama o mundo que saiu das suas sagradas palavras. “Deus enviou seu filho ao mundo não para condenar o mundo, e sim para que o mundo seja salvo por meio dele” (Jo 3,17). Deus criou em amor o mundo para que este mundo pudesse ser amorosamente salvo-recriado por Ele mesmo que continua criando na história humana. Da solidão o Deus-Comunidade faz comunhão e mesmo quando nós quebramos sua Aliança ele a refaz. O teólogo Alfonso Garcia Rubio nos diz que “a cruz é salvadora porque constitui o resumo e a radicalização máxima da entrega de Jesus, vivida durante toda a sua vida”[11]. A cruz não salva por si mesma, como se instrumentos de tortura pudessem nos livrar do inferno que nós mesmos construímos com o nosso “não” ao amor de Deus. A crucifixão apenas espelha toda uma vida de salvação e amor radical ao mundo. Ela fala da vida de Jesus Cristo. São Paulo ensina a Igreja de Roma que “quando não tínhamos força espiritual, Cristo morreu pelos maus, no tempo escolhido por Deus. Dificilmente uma pessoa aceitaria morrer por uma pessoa que obedece às leis [um justo]. Pode ser que alguém tenha coragem de morrer por uma pessoa boa. Mas Deus nos mostrou o quanto nos ama: Cristo morreu por nós quando ainda vivíamos em pecado. Nós éramos inimigos de Deus, mas Ele nos tornou seus amigos” (Rm 5,6-8.10). Somente um Deus apaixonado por sua criação seria capaz de tamanho amor, dessa entrega radical por quem nem merece. “Onde aumentou o pecado, a graça de Deus aumentou muito mais ainda” (Rm 5,20), onde mais o pecado tomou conta da criação, mais Deus nos quis em seus braços apaixonados. “O mundo inteiro diante de ti é como grão de areia na balança, como gota de orvalho matutino caindo sobre a terra. Todavia, tu tens compaixão de todos, porque podes tudo, e não leva em conta os pecados, para que eles se arrependam. Tu amas tudo o que existe e não desprezas nada do que criaste. Se odiasses alguma coisa, não a terias criado. De que modo poderia alguma coisa subsistir se tu não a quisesses? Como se poderia conservar alguma coisa se tu não a tivesses chamado a existência? Tu, porém, poupas todas as coisas, porque todas pertencem a ti, Senhor, o amigo da vida” (Sabedoria 11,22-26). É preciso dizer mais alguma coisa sobre Deus? O crucifixo é então um símbolo paradoxal, pois nos faz lembrar da dor de Jesus e do amor infinito de Deus-Pai-Criador, da morte e da ressurreição, da cruz torturante e da vitória que se deu através dela. Nada há de “tenebroso” no uso de crucifixos, nem de idolatria. Suspeito que, pelo contrário, há algo de profundamente doentio em todo o projeto de banir a dor, o sofrimento, a traição e a morte do horizonte reflexivo humano, questões que a imagem de um Deus crucificado nos propõe. São João da Cruz nos ensina que “a alma verdadeiramente desejosa da sabedoria divina deseja, primeiro – para nela entrar – padecer na espessura da cruz” (Cântico Espiritual 36, 13). Sendo assim, porque corrermos da cruz? Ao usarmos um crucifixo nós estamos também lembrando do nosso trabalho interior de mortificação processual dos desejos do eu. Nós também somos convidados a subir a cruz com Cristo e crucificarmos nossos interesses mesquinhos. Santa Teresa de Jesus dizia que “somos muito agarrados ao nosso eu e nos amamos excessivamente”[12]. Poderíamos dizer que junguianamente é necessário crucificarmos nosso eixo ego/persona para que o Si mesmo possa se manifestar mais plenamente. A cruz nos lembra essa necessidade espiritual de sair do ensimesmamento. Precisamos de esvaziamento de um ego inflacionado, de abertura para o Outro, de acolhimento da dor e da nossa “irmã morte”, como chamou São Francisco de Assis. É na fraqueza da morte de cruz que Deus se tornou forte, é na dor que o amor de Deus se revelou plenamente. A cruz é mesmo, como disse São Paulo, “escândalo para os judeus e loucura para os pagãos” (1Cor 1,23). Nos tempos atuais, nós cristãos precisamos entender que “Deus morre toda vez que seus servos fogem da realidade [dor, sofrimento, envelhecimento e morte] exigida por ele. Também isto se pode aprender olhando para a cruz. Mas Paulo dá um passo a frente. Para ele, a inimizade à cruz é o distintivo do mundo”, posto que este parece querer permanecer cego e mergulhado no ecstasy da uma vida de desejos liberados e sempre insatisfeitos. Foi um ateu, o psicanalista Sigmund Freud, que reconheceu a pulsão/desejo como uma pressão constante, de objeto variável e sempre carente de satisfação. Por fim, se entendermos em profundidade os ricos significados do crucifixo, nós poderemos reunir todos os cristãos num laço de fraternidade, de mútuo reconhecimento e respeito. Afinal, somos todos seguidores imperfeitos do Cristo Vivo, mas antes disso, daquele que é também o Crucificado. [1] História de uma alma, p. 29, Edições Loyola. [2] Nada tenho a objetar os maravilhosos avanços da ciência em todas as áreas, mas criticamos aqui o uso por vezes excessivo e equivocado dos seus abençoados instrumentos, tais como remédios, cirurgias e implantes. [3] Ver Eric Fromm, François Dolto, Elisabeth Roudinesco, Christopher Lash, etc. [4] Aqui usei a tradução da Bíblia de Jerusalém, nos demais textos eu utilizei a “Edição Pastoral” ou a Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH/SBB). [5] “A experiência humana do Divino”, Michel Meslin, editora Vozes, p.168. [6] Ver “Dicionário dos Símbolos: Imagens e sinais da arte cristã”, Editora Paulus. [7] Lembramos aqui de Paul Tillich em “Dinâmica da Fé”, editora Sinodal. [8] “A experiência humana do Divino”, Michel Meslin, editora Vozes, p. 167. [9] Ainda que esses mesmos protestantes – sempre afirmo, nem todos! - tendem a transformar as Sagradas Escrituras em algo demoníaco, destruindo seus significados profundos, materializando-a num literalismo banal e profano. [10] “Perspectivas paulinas”, Ernst Käsemann, editora Paulus, p. 63-64. [11] “O encontro com Jesus Cristo Vivo: Um ensaio de cristologia para nossos dias”, editora Paulinas, p. 96. [12] “Caminho de Perfeição”. |
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